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Agrícola & Iindustrial

Publicada em 30/01/2013

Plantio de soja no Cerrado é responsável por mais de 63% da produção nacional

Cerca de 52 milhões de toneladas serão colhidas na região do Cerrado.

Embrapa

Pela primeira vez na história o Brasil poderá ser o maior produtor de soja do mundo, ultrapassando os Estados Unidos da América. É o que aponta estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgadas neste mês de janeiro. De acordo com o levantamento, a área de soja no país cresceu 9,2% ou 2,3 milhões de hectares sobre a área plantada em 2011/2012 (a área total foi de 25,04 milhões de ha). A produção de grãos de soja poderá aumentar 24,5% em relação à safra anterior, cujo resultado representa um volume de produção de 82,68 milhões de toneladas, acréscimo de 16,30 milhões de toneladas em relação à safra passada.

Dessa produção recorde, mais de 52 milhões de toneladas será colhida na região do Cerrado, localizada nos estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia, Pará e no Distrito Federal. “Há 40 anos, no entanto, este cenário seria impossível de ser imaginado. As cultivares de soja até então existentes não cresciam e nem produziam bem nestas regiões”, ressaltou o pesquisador da Embrapa Cerrados Sebastião Pedro, coordenador do programa de melhoramento de soja da Unidade.

Histórico

essa história começou a mudar em 1980, quando foi lançada pela Embrapa Cerrados a primeira variedade adaptada à região: a Doko. “Ela crescia e produzia bem, mesmo em solos de primeiro ano de cultivo”, conta o pesquisador aposentado em 2009, Plínio de Mello – responsável pela seleção dessa cultivar. Fazer com que uma planta característica de regiões temperadas fosse cultivada nas condições brasileiras foi o grande desafio dele naquela época. Os trabalhos de pesquisa para se chegar a essa variedade duraram cerca de dez anos.

A ideia de produzir essa oleaginosa de origem chinesa no Cerrado encontrou muita resistência na época. “Era considerada uma utopia por muitos”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o projeto inicial apresentado não foi aprovado. “O argumento era de que não havia soja que se adaptasse aos solos dessa região”, conta. Com o passar do tempo, foram descobertas variedades de outros países que cresciam bem, mas que não produziam. “Isso fez com que se chegasse à conclusão de que seria uma questão só de melhoramento”.

Entre centenas de genótipos em teste, o pesquisador Plínio de Mello detectou e selecionou a linhagem que acabou resultando na Doko. “Pesquisa com melhoramento é assim, a gente trabalha em cima de linhagens. Tem milhares e milhares delas. O segredo é, depois do cruzamento, selecionar as melhores”, explica. Segundo ele, a principal característica da linhagem que deu origem à Doko é que ela crescia bem e sua produção era superior a das variedades já conhecidas.

A Doko foi considerada importante, pois com ela era possível abrir as terras para o cultivo. Dessa forma, a sua introdução fez com que os produtores não tivessem prejuízo no início das atividades. “Ela era a única variedade que dava retorno já no primeiro ano”, afirma o pesquisador Plínio de Mello. “Talvez alguns pequenos produtores da Bahia ainda a utilizem nos dias de hoje, por saudosismo ou mesmo para abrir o Cerrado. Ainda é um material ótimo para esse fim”, informa. Atualmente, segundo ele, muitas das variedades mais utilizadas têm parentesco com a Doko.

Produtor de soja, milho e algodão em Correntina (BA), Valter Morinaga começou a plantar a Doko em 1986. “A gente utilizava para abertura de área. Era uma soja mais rústica, ela se adaptava melhor em solos mais fracos”, conta. Para Morinaga, a introdução dessa variedade foi o que desbravou o Cerrado na época. “Depois vieram materiais mais produtivos, mas no início a Doko foi muito importante”, avalia. Hoje, o produtor planta em torno de seis mil hectares de soja na região Oeste da Bahia.

Programa de melhoramento

Nos últimos 30 anos, a Embrapa lançou cerca de 50 variedades de soja importantes para o desenvolvimento da agricultura do Cerrado. O programa de melhoramento de soja é conduzido em conjunto com a iniciativa privada. Na Embrapa Cerrados, localizada em Planaltina (DF), são parceiras as fundações Cerrado e Bahia. De acordo com o pesquisador da Embrapa Cerrados André Ferreira, as parcerias são fundamentais por aproximar a pesquisa e as demandas emergentes dos produtores de soja. “Nesse sentido, o melhoramento de cultivares produtivas com resistências genéticas às principais doenças e que trazem retorno econômico favorável ao produtor é fundamental”, ressaltou.

O programa de melhoramento é coordenado pela Embrapa Soja (Londrina/PR) e envolve várias unidades da Empresa espalhadas pelo país e centenas de profissionais especializados. “A Embrapa mantém suas bases de seleção em unidades localizadas em ambientes representativos de regiões com oferta ambiental para a produção sustentável de soja. Como é o caso da Embrapa Cerrados, estrategicamente localizada em um dos locais mais representativos do Bioma”, afirmou Sebastião Pedro.

O pesquisador André Ferreira destaca a importância do desenvolvimento de cultivares específicas para as diferentes regiões do país. “Isso permite inserir o cultivo de soja nos diversos sistemas de produção e, conforme o ciclo, viabiliza, por exemplo, a safrinha nas regiões produtoras. A diversidade de cultivares pode ser uma grande aliada dos produtores e os novos desafios que surgem motivam as instituições de pesquisa na busca de soluções viáveis para que os sistemas de produção continuem produtivos e sustentáveis”.