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Economia

Publicada em 29/10/2014

Pesquisa mostra êxito de startups da bioindústria nos Estados Unidos

Dissertação ressalta papel que empresas exerceram na produção de biocombustíveis.

Jornal da Unicamp

Os Estados Unidos ocupam hoje a liderança em biocombustíveis no mundo, tanto na produção como em desenvolvimento científico e tecnológico. Superaram o Brasil, que de ator principal agora se mantém em evidência enquanto mercado consumidor, mas não mais por estar na vanguarda. Mostrar como a estrutura de financiamento e a criação de laboratórios públicos nos EUA contribuíram para o surgimento de startups especializadas no processamento integrado da biomassa – e o importante papel que estas empresas exercem na viabilização de biocombustíveis e bioprodutos – é o objetivo da dissertação de mestrado de Mariane Santos Françoso.

A pesquisa intitulada “O surgimento das startups da bioindústria nos Estados Unidos: o papel do financiamento e dos laboratórios públicos” foi orientada pelo professor Sérgio Robles Reis de Queiroz e apresentada no âmbito do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG). “Há uma série de políticas coordenadas para incentivar o processamento de biomassa, que visam desde criar um mercado de consumo para o produto, até uma estrutura de financiamento e de laboratórios públicos para despertar o interesse de startups na área”, explica a autora.

Segundo Mariane Françoso, montou-se um sistema de inovação muito bem pensado, que abrange todas as esferas, começando por um aparato científico para incentivar a produção de conhecimento: foram implantados três laboratórios públicos, além de outro já existente desde a década de 1970, que trabalhava com bioenergia e teve suas iniciativas redirecionadas. “Os EUA atuam em duas frentes: pela criação de uma demanda e de um ambiente institucional para que as startups possam atuar, tendo por trás toda uma estrutura de amparo à pesquisa. São esses laboratórios, também, que fornecem suporte técnico para que o Departamento de Energia (DOE) estabeleça suas políticas e metas.”

A pesquisadora acrescenta que o sistema de inovação inclui uma estrutura de financiamento complexa, porém bem articulada, para a implantação de startups, com recursos dos governos federal e estadual e também do setor privado. “Não são todos, mas diversos estados fornecem incentivos a essas empresas. Já o mercado de capital de risco (venture capital) é um grande diferencial do país e fonte importantíssima de financiamento para as startups. Isso porque os empreendimentos apresentam alto risco, que um banco tradicional não está disposto a assumir. Cito autores que se referem ao mercado de venture capital americano como o mais desenvolvido do mundo.”

O sistema de inovação é complementado, conforme Mariane, por um grande programa denominado Biomass Program, que lança os editais fornecendo recursos para startups e articula todas as pesquisas no país. “Foram criadas agências governamentais para evitar o esforço duplicado dentro do estado e da indústria; assim não se repete pesquisas e o dinheiro público não é destinado a projetos similares já em andamento. Minha dissertação mostra que a estrutura de suporte técnico-científico e a estrutura de financiamento foram cruciais para a criação de startups, contemplando-se desde as etapas iniciais, como de P&D, até as mais avançadas, como a instalação de unidades produtivas em escala comercial.”

Laços com a academia

A autora ressalta que sua dissertação trata da bioindústria, que utiliza matérias-primas renováveis para produção de combustíveis, insumos químicos, polímeros e plásticos. Tem como base uma produção integrada na forma de biorrefinarias, definidas pelo DOE como instalações, equipamentos e processos que, além de converterem biomassa em produtos, ao mesmo tempo geram energia. “A biomassa pode vir de várias fontes – resíduos agrícolas, florestais, urbanos – e são várias as tecnologias para processá-la, baseadas em bioquímica, genética e biologia sintética. Não existe ainda uma tecnologia dominante – as principais rotas são a bioquímica e a termoquímica, com aposta maior do governo americano na primeira.”

Mariane Françoso encontrou um total de 59 empresas atuando na área de biomassas nos EUA, sendo 27 criadas a partir dos anos 2000. “Um aspecto interessante é que as startups que analisei tinham pessoas vindas da academia – professores, ex-estudantes de doutorado e mesmo ainda alunos. Possuíam um quadro de funcionários composto por grande número de doutores e mantinham uma relação forte com universidades e institutos de pesquisa. Essas empresas vêm assumindo um papel muito importante no desenvolvimento tecnológico de biorrefinarias, tanto que algumas das tecnologias mais ‘transformadoras’ de 2010 foram desenvolvidas por startups.”

Na dissertação, a pesquisadora informa que o Biomass Program foi lançado em 2002 com quatro objetivos: a redução da dependência por petróleo estrangeiro; a promoção de diversas fontes de energia domésticas e renováveis; o estabelecimento de uma avançada bioindústria e criação de empregos; e a redução das emissões de carbono na produção e no consumo de energia. “Do lado do consumo, o governo criou o Renewable Fuel Standar (RFS), estabelecendo metas para consumo de etanol e outros biocombustíveis no país, e oferecendo incentivos para a infraestrutura do E85 (combustível baseado em misturas com teor de etanol a partir de 85%). Esta é considerada a regulação mais importante no que diz respeito ao consumo de biocombustíveis, pois criou uma demanda para o etanol, que antes não existia, além de sinalizar com uma demanda futura para potenciais investidores.”

A pesquisadora acrescenta que posteriormente foi implantado o Energy Independence and Security Act (EISA, de 2007), que tinha como objetivo aumentar a segurança energética dos EUA. “O EISA atualizou e aumentou a meta de consumo de combustíveis renováveis para 36 bilhões de galões/ano a partir de 2022, com a expectativa de que sejam investidos, até lá, 100 bilhões de dólares na indústria do etanol, também incentivando o desenvolvimento de biocombustíveis avançados.”

Com o gás de xisto, um revés

Apesar de tamanho investimento do governo americano, Mariane Françoso afirma que as startups vivem um momento delicado, devido à descoberta de uma tecnologia que vem permitindo aos EUA extrair gás de xisto de lugares antes inacessíveis: trata-se da fraturação hidráulica (fracking), em que a terra é perfurada a grandes profundidades, com injeção de jatos de água para causar fissuras e liberar o gás das formações de xisto. “Com isso, o preço do gás americano caiu significativamente, estimando-se que seja equivalente a 60% do preço na Europa e 20% do preço da Ásia. Em 1990, o gás de xisto representava apenas 2% da produção americana de gás natural; hoje responde por 40% da produção anual de 23 trilhões de pés cúbicos.”

Segundo a pesquisadora, a decorrência desta descoberta foi uma mudança de rumo na política americana, dando prioridade ao gás natural em detrimento da produção de biocombustíveis – que em 2012 contou com apenas 16,1% dos gastos do governo com energia limpa, prevendo-se que essa queda continue. “O setor depende de grande apoio do governo, que por sua vez reorientou sua política energética para o material fóssil, causando instabilidade no mercado. Um dos fundadores de uma empresa que consta do meu trabalho reclama da dificuldade em obter financiamento inclusive do mercado de venture capital, que é muito importante para eles.”

A autora da dissertação observa que a tecnologia de uso do gás já está bem estabelecida naquele país, aplicada para fornecimento de energia e aquecimento na indústria e nas residências, e também como combustível. “Vale lembrar que a maior preocupação dos Estados Unidos não é ambiental, e sim de independência energética, que com essas jazidas fica bem resolvida, embora não totalmente. O governo não abandou a corrida pelos biocombustíveis, mas o recuo foi significativo e não dá para arriscar um palpite sobre o futuro. Apesar de haver startups bem consolidadas, uma das que analisei já não existe. Talvez outras sejam absorvidas por grandes indústrias com iniciativas em biomassa, ou então mudem de foco, limitando-se aos produtos químicos.”

Exemplo que serve ao Brasil

A ressalva de Mariane Françoso é que, embora o investimento e a organização dos EUA visando ao processamento de biocombustíveis de gerações mais avançadas impressionam, a lente colocada sobre as empresas mostra que o desenvolvimento desta tecnologia ainda patina por causa de vários entraves. “Os biocombustíveis ainda não são economicamente viáveis e, com isso, as empresas que surgiram se voltam a insumos para a indústria química, como a fina e de cosméticos, já que esta tem se mostrado mais atraente.”

De qualquer forma, a autora da dissertação afirma que o modelo americano, utilizando e articulando diversos instrumentos para incentivar um setor de alta tecnologia, é um bom exemplo para o Brasil, que já perdeu a liderança como produtor de biocombustíveis de primeira geração e agora corre o risco de ficar para trás em relação a tecnologias mais avançadas. “Meu objetivo não foi comparar, mas em se tratando de biocombustíveis é obrigatório falar do Brasil, ainda mais diante da quantidade de biomassa aqui produzida e de outros ativos como laboratórios de pesquisa e mercado consumidor. O modelo dos Estados Unidos pode ser uma inspiração para que nosso país não perca essa corrida.”