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Economia

Publicada em 25/04/2014

Cana e celulose ajudam a mudar matriz econômica de MS

Antes dependente da soja e do boi, Estado diversifica sua economia.

Anderson Viegas

Os setores sucroenergético e de papel e celulose estão ajudando a mudar a matriz econômica de Mato Grosso do Sul, que até meados da década passada era extremamente dependente da agricultura e pecuária. A avaliação é do secretário estadual de Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo (Seprotur), Paulo Engel.

“Mato Grosso do Sul passou nos últimos sete anos por uma transformação na sua economia. Até então, nós só realizávamos uma produção primária, com foco principal no cultivo de soja e criação de gado. Através de muitos investimentos em infraestrutura pública, tecnologia e graças também ao grande empenho dos produtores, neste momento o nosso Estado está também produzindo matéria-prima de primeira qualidade para indústrias de grande porte que chegaram aqui”, destaca.

Engel também ressaltou que o crescimento destes dois setores na área agrícola, com a produção de cana-de-açúcar para abastecer as usinas sucroenergéticas, e de florestas plantadas para atender as indústrias de celulose, está sendo feito em áreas que antes eram subaproveitadas.

“Essas produções estão sendo realizadas em áreas em processo de degradação – não entramos em áreas novas, ou seja, mesmo com este incremento na produção do Estado nós só tivemos impactos ambientais positivos. Ao mesmo tempo, continuamos evoluindo na produção de grãos, mantivemos a produção de carne bovina e aprimoramos a qualidade deste produto pelas tecnologias investidas. Aumentamos também a produção de carne de suínos, de frango e de peixes”, analisa.

O secretário lembrou que quando esses setores começaram a se desenvolver no Estado existiram muitas críticas, mas que os argumentos contra acabaram se mostrando infundados. “Dizia-se que elas ameaçariam as produções de soja e carne no Estado. O que podemos confirmar agora é que aconteceu justamente o contrário, nós mantivemos o nosso padrão ambiental e evoluímos na questão social em relação à criação de empregos, de divisas e de oportunidades para a nossa economia”.

Engel afirma que o governo pretende continuar trabalhando para incentivar ainda mais o crescimento destes segmentos e de outros para diversificar cada vez mais a base econômica sul-mato-grossense. “Vamos continuar a atrair novos projetos e estimular aqueles que atuam no Estado a realizar mais investimentos, por meio de programas como o MS Empreendedor e outros, que oferecem benefícios fiscais pelo prazo de até 15 anos”, comenta.

Outro aspecto destacado pelo secretário foi o dos investimentos realizados pelo Poder Público para melhorar a infraestrutura e aumentar a competitividade das empresas que se instalarem em Mato Grosso do Sul. “Estamos fazendo obras de infraestrutura viária e de energia como estradas, linhas de transmissão, assegurando a internalização de insumos e bens de capital para reduzir custos e tornar os produtos sul-mato-grossenses cada vez mais competitivos”, explica, destacando também o apoio a qualificação de mão de obra e a captação de recursos, nas instituições e fundos de fomento.

Setor sucroenergético

Um dos segmentos destacados pelo secretário, o da agroindústria canavieira do Estado, foi um dos principais beneficiados pela expansão que ocorreu neste setor no Centro-Sul do País a partir de 2002. O diretor executivo da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Souza, diz que um cenário muito positivo na época fez com fossem alavancados vários investimentos.

“O consumo de etanol vinha crescendo muito no País [Em 2009, o etanol hidratado, usado nos carros flex e nos 100% dedicados, chegou a representar 39,32% do total consumido nos veículos de ciclo otto no Brasil]. Além disso tínhamos a perspectiva da abertura de mercado nos Estados Unidos, que discutiam um ambicioso programa de uso de biocombustíveis com consumo previsto em 2020 de mais de 135 bilhões de litros e na União Européia, que tinha previsão de que 10% da energia consumida no bloco viesse de fontes renováveis até essa mesma data”, recorda.

Nesta conjuntura, e apresentando uma série de vantagens competitivas para o setor, Mato Grosso do Sul se transformou em uma das novas fronteiras do setor. Durante o Congresso do Setor Sucroenergético do Brasil Central (Canacentro), realizado em março, em Campo Grande, o diretor comercial para Açúcar e Etanol do banco Itaú BBA, Alexandre Enrico Figliolino, destacou que entre as condicionantes favoráveis ao desenvolvimento do setor no Estado estavam na época e permanecem: a topografia e o tamanho das terras, custo mais baixo de arrendamento de áreas, bons ambientes de produção e boa produtividade agrícola, além de um ambiente institucional favorável.

Segundo a Associação dos Produtores de Bioenergia do Estado (Biosul), entre as safras 2004/2005 e 2013/2014, o número de plantas em atividade passou de nove para 22. A moagem cresceu 361,1%, saltando de 9 milhões de toneladas no ciclo 2005/2006 para 41,5 milhões de toneladas no 2013/2014. Como maior quantidade de matéria-prima, as usinas mais que dobraram a produção de açúcar e de etanol.

O processamento do alimento, por exemplo, cresceu entre os ciclos 2008/2009 e 2013/2014, 113,7%, de 640,5 mil toneladas para 1,368 milhão de toneladas, e a fabricação do combustível aumentou 108,2%, passando de 1,071 bilhão de litros para 2,230 bilhões de litros. Esses números colocam o Estado como o quinto maior produtor de cana, o quarto maior de açúcar e o quinto de etanol do País.

Além disso, o açúcar, que em 2004, ocupou a modesta 19ª posição no ranking estadual de receita com as exportações, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) com vendas de apenas 39,252 mil toneladas e faturamento de US$ 5,867 milhões, passou a figurar como um dos principais produtos vendidos pelas empresas do Estado no mercado internacional. O alimento fechou 2013 ocupando a quarta posição em faturamento, com a comercialização de 1,186 milhão de toneladas e resultado financeiro de US$ 496,4 milhões. Sozinho, o produto representou 9,44% da receita total obtida por Mato Grosso do Sul com as vendas internacionais no ano.

Segundo a Biosul, essa expansão também tem ajudado a interiorizar o desenvolvimento em Mato Grosso do Sul, tanto que municípios onde foram instaladas unidades e as cidades e comunidades próximas estão sendo beneficiadas com o aumento da demanda por produtos e serviços e consequentemente pela geração de emprego e renda, abertura de novas empresas, aumento da arrecadação de tributos e da circulação de recursos.

Em Angélica, que conta com uma usina desde 2008, a entidade aponta que receita com o Imposto sobre Serviços (ISS) cresceu em um intervalo de quatro anos, que compreende o início da construção da planta até sua operação plena, entre 2006 e 2010, 2.543%, saltando de R$ 107,3 mil para R$ 2,8 milhões.

Já em Rio Brilhante, que na safra 2012/2013, teve a segunda maior área plantada com cana do País, com 96 mil hectares, e que possui três usinas sucroenergéticas instaladas, a arrecadação com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) cresceu 53% neste mesmo intervalo de tempo, passando de R$ 558,4 mil para R$ 854,8 mil por ano.

A importância do setor para o município pode ser atestada por pessoas como Claudemir Leonardo, de 44 anos, ele é superintendente do Polo de Mato Grosso do Sul da Biosev, um dos principais grupos sucroenergéticos do País e que tem três unidades no Estado, sendo duas em Rio Brilhante.

Morador de Rio Brilhante, Claudemir conta que trabalhou até os 15 anos de idade no comércio varejista da cidade. Depois, ingressou na empresa como auxiliar de serviços gerais e após ser capacitado pela companhia passou por praticamente todos os setores e funções dentro da empresa até chegar ao posto atual.

“Depois que ingressei na empresa tive a oportunidade de estudar. Me formei técnico em química, fiz faculdade de Engenharia de Produção Mecânica e pós-gradução em Gestão de Bioenergia. Hoje faço outra pós, em Gestão Empresarial. Antes de ingressar na empresa nunca imaginei me desenvolver e ter um crescimento tão amplo quanto o que tive. Hoje, com essa evolução posso dar um futuro melhor para minha família e realizar meu maior sonho, proporcionar uma formação de qualidade para minha filha”, comenta, destacando ainda a importância do setor para o Estado. “Além de produzir uma fonte de energia limpa e renovável, como o etanol, o setor também é um grande gerador de empregos diretos e indiretos e de recursos, que fomentam o desenvolvimento sul-mato-grossense”, conclui.

Segundo a Biosev, a companhia emprega atualmente 3.580 colaboradores em suas unidades no Estado e desse total, 58% são de Mato Grosso do Sul. De acordo com a Biosul, entre os ciclos 2004/2005 e o 2012/2013, o número de vagas de trabalho diretas no setor cresceu 60,5%, de 19 mil para 30,5 mil. Já o de indiretas, estimado em três para cada uma direta, chega a cerca de 90 mil.

Conforme o presidente da Biosul, Roberto Hollanda, apesar da expansão registrada pelo setor nos últimos anos no Estado, o segmento como um todo vem enfrentando desde 2008 uma crise que vem se agravando, provocada principalmente pela política energética do governo federal, que continua pressionando os preços do etanol e também do novo produto do segmento a bioeletricidade.

Ele aponta que na nova safra, 2014/2015, que já foi iniciada no Estado, a perspectiva é de que ocorra um aumento de 6,76% na moagem, que deve chegar, se não houver influência negativa do clima, a 44,3 milhões de toneladas.

O presidente da Biosul destaca ainda que em decorrência da crise no setor, não está prevista pelos próximos dois ciclos a instalação de nenhuma nova unidade no Estado, no entanto, as empresas do segmento vão continuar a investir para recuperar a produtividade dos canaviais, que foi muito afetada pelas influências climáticas nas últimas quatro safras, e também na capacitação profissional.

Hollanda ressalta que neste novo ciclo está prevista a capacitação de pelo menos 4,5 mil trabalhadores do setor em Mato Grosso do Sul, sendo 1,5 mil por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e 3 mil pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Segundo a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), para atender essa demanda do setor, a unidade do Senai de Dourados passou por obras de reforma, ampliação e modernização, que incluíram a montagem de modernos laboratórios didáticos, entre os quais, uma microdestilaria de etanol, em 2012.

Além disso, no período de 2008 a 2013, foram inauguradas agências de formação profissional do Senai em Deodápolis, Nova Alvorada do Sul e Ivinhema e adquiridas salas de aula móveis para levar os cursos até as cidades onde o Senai não conta com unidades fixas.

Celulose

Se no setor sucroenergético, a expansão levou a uma maior participação na matriz econômica do Estado, no de papel e celulose, que não tinha nenhuma planta de produção em Mato Grosso do Sul, a instalação da primeira unidade, a da Fibria, em Três Lagoas, em 2009, fez como que o novo segmento logo ocupasse um papel de destaque no cenário econômico sul-mato-grossense.

Em 2010, a celulose, conforme dados Mdic, já foi o segundo produto em receita no ranking de exportações com o Estado, com vendas de 824,725 mil toneladas e faturamento de US$ 401,318 milhões.

Em 2012, o segmento ganhou um novo impulso, com a inauguração da Eldorado Brasil, também em Três Lagoas. A unidade fechou seu primeiro ano de atividade com uma produção de 1,27 milhão de toneladas de celulose e em 2014pretende chegar a capacidade instalada de 1,7 milhão de toneladas, já tendo projeto para chegar a 2 milhões de toneladas.

Já a Fibria, conforme a assessoria da empresa, atingiu em março na unidade de Três Lagoas, a marca da produção de 6 milhões de toneladas de celulose desde a inauguração da planta. Com moderna tecnologia de produção e eficiência operacional, a fábrica possui capacidade instalada para produzir até 1,3 milhão de toneladas de celulose de fibra curta por ano.

Além da ampliação da capacidade das duas unidades instaladas em Três Lagoas, o setor de papel e celulose deve ter um incremento ainda maior em Mato Grosso do Sul, de acordo com o governo do Estado, com a instalação de uma terceira planta, uma unidade da CRPE Holding S.A., que pretende construir uma planta em Ribas do Rio Pardo.

O investimento previsto na planta da CRPE Holding S.A é de R$ R$ 1,330 bilhão. Desse total, a empresa obteve em dezembro do ano passado a aprovação em consulta prévia a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) para financiar R$ 713,5 milhões com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Centro-Oeste (FDCO).

Enquanto a nova planta não é viabilizada, o Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose do Estado (Sinpacems), projeta que o setor que emprega mais de 2,3 mil trabalhadores, deve ter um crescimento em torno de 10% em Mato Grosso do Sul neste ano, o que deve elevar a receita líquida das empresas de aproximadamente R$ 2,48 bilhões R$ 2,72 bilhões.

Para atender também a essa demanda, o Senai realiza desde 2008 investimentos em sua unidade em Três Lagoas. Até 2012, foram construídos laboratórios, oficinas e novas salas de aula, além de ampliada e modernizada a estrutura do prédio.

A entidade também vai fazer um investimento de R$ 35 milhões na construção e implantação do Instituto Senai de Inovação de Biomassa (ISI Biomassa), que terá como um dos principais focos de atendimento, as indústrias de papel e celulose.

PIB

Segundo a Fiems, o crescimento destes dois setores e também de outros segmentos, vem ajudando a alavancar o incremento do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria em Mato Grosso do Sul.

Conforme a entidade, em 2002, o segmento industrial como um todo era responsável por 16,7% de toda a riqueza gerada em Mato Grosso do Sul. Estava empatado com o setor público e atrás da agropecuária e do setor de serviços e comércio.

Já em 2011, a indústria assumiu a segunda posição na relação de importância do PIB, com uma participação de 22,8%, sendo superada apenas pelos serviços e comércio, que tem uma fatia de 44%, e deixando para trás o setor público com 19,2% e a agropecuária com 14%.

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