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Economia

Publicada em 21/03/2014

Mundo ainda continua muito interessado e demandando biocombustíveis, aponta Fava Neves

Professor da USP foi um dos palestrantes do Canacentro, em Campo Grande.

Anderson Viegas

“Países como os Estados Unidos e as nações da União Europeia reduziram o ritmo de implementação de uso de biocombustíveis, mas não abandonaram suas políticas de uso de combustíveis renováveis, apenas o crescimento de sua utilização vai ocorrer em um ritmo menor”, assim o professor Marcos Fava Neves, da Universidade de São Paulo, resumiu como as energias renováveis devem continuar ganhando espaço no cenário global nos próximos anos, durante palestra no 2º Canacentro, em Campo Grande (MS).

Fava Neves explicou que o caso dos Estados Unidos, por exemplo, em que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) estuda a redução de 40% no mandato de consumo de biocombustíveis avançados no país, de 3 bilhões de galões (11,3 bilhões de litros), em 2013, para 2,2 bilhões de galões (8,3 bilhões de litros), em 2014, é um bom exemplo disso. “Ainda representa um mercado para o etanol brasileiro, que é enquadrado como combustível avançado, de 8,3 bilhões de litros e isso é muito mais do que conseguimos exportar no ano passado para o país, que foi 1,6 bilhão de litros”, comentou.

Outra sinalização do governo americano que de que o país continua apostando muito nos biocombustíveis, conforme o professor, foi a informação divulgada neste mês de março pelo Departamento de Agricultura (USDA) de que o órgão pretende estimular a instalação de bombas de etanol (E15, E20, E30 e E85) em todo o território norte-americano.

Da mesma forma, Fava Neves apontou que notícias divulgadas na União Europeia apontam que a produção de biocombustíveis aumentou nos países do bloco com a redução dos preços dos grãos e que os governos de países como a Índia e a Austrália já anunciaram a intenção de utilizar o etanol como aditivo a gasolina, para reduzir as importações do combustível fóssil. No caso do país asiático a intenção é de misturar 5% de etanol já em 2014 enquanto que a nação da Oceania projeta chegar ao percentual de 25% da mistura até 2020.

O professor destacou, entretanto, que além destes mercados que já estão abertos ou estão em processo de abertura, que existem outros ainda, com grande potencial nos países que chamou de “bombas de consumo”. “São países que estão em processo de desenvolvimento. Possuem uma população que está crescendo muito, estão em ritmo acelerado de urbanização e têm pouco território para expandir sua produção de alimentos e biocombustíveis. Nesse cenário, estão nações como Indonésia, Vietnã e Nigéria, entre outros. Esses países vão precisar comprar comida e biocombustíveis de alguém e o Brasil tem condições de ser seu grande fornecedor”, avaliou.

Ele, entretanto, alertou que para que o “cavalo arriado” dessas oportunidades que despontam para o País não seja desperdiçado é preciso que sejam superados ainda vários entreves e propôs uma agenda com medidas que têm de ser adotadas pelo Poder Público e pela iniciativa privada até 2030.

Em relação a iniciativa privada, aos elos que compõem a cadeia da indústria canavieira no Brasil, as medidas que têm de ser adotadas nos próximos anos, conforme Fava Neves, são: o investimento em inovação para melhorar a produtividade, aumento do trabalho coletivo e em consórcios, fortalecimento das associações, fortalecimento das cooperativas, planejamento estratégico, criação de um sistema de informações econômicas, maior investimento em educação e extensão, maior comunicação do setor e mudança da mentalidade do fornecedor de cana para que ele se torne um “produtor integrado” da cultura.

Já para o Poder Público a agenda do professor demanda: fim da manutenção artificial do preço da gasolina, equiparando o preço do combustível fóssil ao do mercado internacional, retorno da cobrança da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), padronização da alíquota do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em 12% em todos os estados, elevação da mistura do etanol anidro a gasolina para 27,5%, incentivo a instalação de greenfields em regiões sensíveis do Brasil para o desenvolvimento econômico, melhorias no sistema de transporte, melhorias no sistema trabalhista, implantação de política pública que estimule a cogeração de energia e eficiência na gestão pública.