Canais de Notícia

Entrevistas

Publicada em 29/03/2013

Prevenção contra mosca depende de ações conjuntas, diz pesquisador

Pesquisador da Embrapa Paulo Cançado desenvolve estudo sobre o inseto.

Anderson Viegas

Os surtos da mosca dos estábulos em algumas propriedades rurais de Mato Grosso do Sul foram alguns dos assuntos discutidos durante audiência pública sobre o uso da vinhaça na fertirrigação nos canaviais do Estado.

O pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Paulo Henrique Duarte Cançado, um dos participantes do evento, apontou que a causa do problema não são as usinas sucroenergéticas, mas como os surtos em algumas regiões tem ocorrido próximo as unidades, que elas também fazem parte da solução.

Nesta entrevista ao CanaNews, ele fala mais sobre o inseto, a pesquisa da Embrapa Gado de Corte e sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido para controlá-lo.

CanaNews - O que é a mosca do estábulo? Quais prejuízos pode causar ao rebanho bovino?

A mosca dos estábulos é um inseto hematófago (que se alimenta de sangue). Seu nome científico é Stomoxys calcitrans e pode ser encontrada em diversos países. Como ela se alimenta de sangue é classificada como um parasita. Para os bovinos de leite os prejuízos são bem maiores podendo chegar a até 60% de queda na produção de leite durante um surto grave. Para bovinos de corte o prejuízo é de aproximadamente 20% de redução no ganho de peso. Isto sem falarmos dos índices reprodutivos como taxa de prenhez e até mortalidade de bezerros.

CanaNews – Como está a situação da mosca do estábulo em Mato Grosso do Sul? Quais as áreas de maior infestação?

Em primeiro lugar é bom esclarecer que este não é um problema restrito ao nosso estado. Temos relatos e surtos de mosca dos estábulos em diversas regiões do país. Outro ponto que deve ser ressaltado ao pecuarista e usinas é que este é um problema relativamente novo, a mosca já existe muitos anos no Brasil mas não era considerada um problema. Em função disso, ainda não se conhece a fundo a situação no estado, mas sabemos que surtos vem ocorrendo em diversos municípios do nosso estado. Nova Alvorada do Sul é um dos municípios que vem tendo reclamações sobre mosca dos estábulos.

CanaNews – Como é o ciclo de reprodução do inseto? O uso da vinhaçana fertirrigação pode contribuir para aumentar a incidência do inseto, ou isso não procede?

A mosca adulta se alimenta de sangue e posteriormente (após alguns dias) procura um local adequado para colocar seus ovos. Este local pode ser qualquer um onde existir fibra vegetal misturado com matéria orgânica e umidade, em estado de decomposição. Normalmente este locais são encontrados dentro dos estabelecimentos produtores de gado: restos de ração acumulados em volta dos cochos; silagem mal manejada; cama de frango dentre outros. Ou seja, sempre que houver estes três componentes, existirá condições para as moscas colocar ovos e se desenvolver. Atualmente, com a colheita mecanizada a palha da cana fica sobre o solo (fibra vegetal), posteriormente há aplicação de vinhaça (matéria orgânica e água); isto cria um ambiente onde as moscas conseguem se reproduzir. É importante salientar que esta composição (palha de cana + vinhaça) não é a melhor para as moscas colocarem seus ovos. Os melhores locais são aqueles encontrados dentro das fazendas produtoras de gado, principalmente leiterias e confinamentos. Granjas (ovo ou corte) e suinoculturas também podem ser locais de reprodução da mosca.

CanaNews – A aplicação de medidas preventivas pode diminuir sensivelmente o problema? Com a limpeza dos currais, o surto pode ser controlado?

Sim, hoje acreditamos que os focos iniciais dos surtos estão dentro das propriedades onde se cria bovinos. Isso é facilmente compreendido se pensarmos que as moscas já exstem em Mato Grosso do Sul há muitos anos e as moscas faziam todo seu ciclo biológico dentro das fazendas. Atualmente essa situação não mudou, as moscas continuam fazendo todo seu ciclo dentro dos estabelecimentos pecuários e mantem uma pequena população da mosca dos estábulos. Este é o foco inicial! Está pequena população que fica próxima ao rebanho é que vai até as áreas de plantio de cana ou na torta de filtro (resíduo da usina) e lá encontra uma grande quantidade de locais para se reproduzir, as novas moscas voltam para se alimentar do rebanho causando o surto. Em resumo, aparentemente o foco inicial é dentro da fazenda pecuarista e a usina amplifica o problema causando os surtos.

Por isso a Embrapa Gado de Corte recomenda atenção redobrada dos pecuaristas com os possíveis locais de reprodução da mosca. Se os pecuaristas realizarem a limpeza dos coxos e currais de forma adequada espera-se uma grande redução pois o foco inicial será eliminado. A grande dificuldade é que todos devem fazer a sua parte pois o foco inicial de um produtor acaba afetando a todos. É como no controle do mosquito da dengue se o seu vizinho não faz a parte dele você pode ficar doente. Da mesma forma as usinas tem o dever de estar atentas pois uma pequena falha no manejo pode contribuir significativamente para o aumento da população.

CanaNews – Como a Embrapa tem pesquisado o controle deste inseto? Há quanto tempo é feito esse trabalho? Quais entidades são parceiras e quais os resultados já alcançados?

Como falamos anteriormente esta mosca não era considerada um problema a poucos anos atrás por isso os nossos esforços tem sido em conhecer melhor a epidemiologia da mosca. Além disso tem sido feito um trabalho de transferência do conhecimento já existente para os produtores rurais, orientando-os sobre como realizar a prevenção. Outra frente de trabalho é junto as usinas de cana-de-açúcar, estamos acompanhando o trabalho de prevenção e controle da mosca em parceria com três usinas aqui do estado. Já está em andamento um programa de monitoramento das usinas para acompanhar a criação da mosca dos estábulos em suas áreas de plantio. No laboratório, as atividades estão na tentativa de encontrar formas eficientes de controle desta praga, estamos testando inseticidas, armadilhas e técnicas de manejo. Para isso, foi feito muito investimento em laboratórios para a criação de uma colônia de moscas que são utilizadas nos testes.

A Embrapa acompanha o caso desde os primeiros surtos aqui no estado. Para se ter uma ideia do investimento que está sendo feito, ainda em 2010 durante o Congresso Brasileiro de Parasitologia Veterinária esse oi um dos principais pontos discutidos e uma equipe de especialistas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (ARS/USDA) e da Universidade da Luiziana (LSU), foi convidados justamente para conhecer o problema e participar dos projetos. Em 2011 foram destinados recursos específicos para as atividades de pesquisa. Atualmente nos já temos uma publicação sobre o problema disponível no site da Embrapa Gado de corte, e aumentamos muito nosso conhecimento. Sabemos onde a mosca se reproduz e quais são os principais pontos para atacar o problema. Entretanto algumas informações ainda necessitam ser melhor estudadas para termos um controle eficiente.

A Embrapa tem diversos parceiros neste projeto: Embrapa Gado de Corte, Embrapa Pantanal, UFMS, UFRRJ, Biosul, Famasul; ARS/USDA e a LSU.

CanaNews – Quais os próximos passos deste trabalho? Em relação especificamente a Nova Alvorada do Sul está sendo feita alguma coisa?

Os próximos passos são estabelecer um monitoramento constante e semanal da população de moscas em 3 regiões onde existem usinas que servirão de modelo para as demais regiões. Em breve vamos ter uma central de inteligencia que fará alertas sobre os surtos. Esperamos ainda publicar uma cartilha de boas praticas preventivas. Não temos atividades específicas para Nova Alvorada do Sul, como o problema é regional (regiões central e sudeste do Brasil) nossas atividades estão voltadas para o problema como um todo. Nova Alvorada do Sul é um dos municípios onde temos atividades de pesquisa em andamento, assim como temos em outros municípios de Mato Grosso do Sul; Mato Grosso; São Paulo e Goiás. Lembro que este não é um problema localizado é um problema do Brasil.

É muito importante relatar que as pesquisas levam tempo, e que estamos trabalhando com o máximo esforço para obtermos resultados confiáveis. Atualmente a única forma de se prevenir a mosca dos estábulos é com ações conjuntas e integradas entre pecuaristas e usinas. Para isso é muito importante o envolvimento dos sindicatos rurais, órgãos de extensão rural e defesa sanitária que vão fazer a difusão do conhecimento existente e fiscalizar as ações das usinas e pecuaristas.