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Publicada em 29/03/2013

Pesquisador rebate associação de inseto ao setor sucroenergético

Segundo Paulo Cançado, surtos da mosca dos estábulos, ocorrem também em áreas e estados que não tem cana.

Anderson Viegas

Durante audiência pública sobre projeto que regula uso da vinhaça em Mato Grosso do Sul, nesta quarta-feira (27), na Assembleia Legislativa, o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Paulo Henrique Duarte Cançado, rebateu as informações de que surtos de um inseto conhecido como mosca dos estábulos, que ataca bovinos, estariam associados a utilização do produto em canaviais.

“A mosca dos estábulos não é um problema somente de Mato Grosso do Sul. É um problema do País. Temos registro de surtos em Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Não é uma situação das usinas, pois ocorrem surtos em estados que não tem cana. No Espírito Santo, por exemplo, ocorreram surtos relacionados a cultura do café. Não dá para dizer que é responsabilidade do setor sucroenergético, mas como os surtos no Estado tem ocorrido próximo as usinas, elas também fazem parte de sua solução”, comenta.

O presidente da Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Roberto Hollanda, diz que há cerca de quatro anos, quanto surgiram os primeiros relatos de surtos do inseto, que a entidade procurou a Federação de Agricultura e Pecuária do Estado (Famasul) e juntas acionaram a Embrapa Gado de Corte para estudar o caso.

“As usinas abriram suas portas para os pesquisadores. Apoiamos a produção de cartilhas com orientações tanto para os produtores quanto para as usinas e realizamos workshops de capacitação. Sempre nos pautamos pela ciência, pela orientação técnica. O setor não pode ser responsabilizado pelo assunto. Não é a única solução, mas estamos contribuindo para que o problema seja resolvido”, comenta.

A secretaria de Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria e do Comércio de Mato Grosso do Sul, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, corroborou com Hollanda, reiterando que o setor não pode ser responsabilizado por eventuais surtos do inseto. “Nos Estados Unidos a mosca dos estábulos é um dos principais problemas da pecuária. As perdas que o inseto causa estão entre as maiores do setor e lá não tem cana, não tem vinhaça”, exemplifica.

O presidente da Associação dos Produtores de Cana do Estado (Sul Canas), Paulo Junqueira, seguiu na mesma linha da secretária. “Se a causa fosse a cana, todos os municípios que têm a cultura, que têm usinas teriam surtos da mosca e não é isso que acontece. A resposta para o problema é a ciência. É a pesquisa”, aponta.

O presidente da Comissão de Agroenergia da Famasul, Luiz Alberto Moraes Novaes (Mandi), lembrou que atuação da Embrapa Gado de Corte foi muito rápida neste caso. “Cerca de 60 dias após os acionarmos [Famasul e Biosul] eles já estavam emitindo uma nota técnica com informações sobre o inseto e com algumas medidas que deveria ser adotadas por produtores e pelas usinas para diminuir a infestação”, recorda.

Novaes lembrou que os técnicos já apontaram que a mosca dos estábulos se reproduz em áreas onde existe acumulo de matéria orgânica, como áreas de pastagens amassadas, que têm a acumulo de palhada, em confinamentos e em estábulos, e que o problema precisa de soluções economicamente viáveis e que possam ser aplicadas em conjunto.

Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, a entidade já tem um laboratório em Campo Grande dedicado exclusivamente voltado para pesquisas com a mosca do estábulo. Na instalação estão sendo acompanhadas duas colônias do inseto, uma recolhida em outro estado e uma que veio de áreas de infestação em Mato Grosso do Sul.

“Através desse acompanhamento vamos ter mais informações sobre o ciclo de vida da mosca. Também estamos estudando, ainda sem resultados conclusivos, o uso de inseticidas para uso emergencial contra o inseto, e trabalhamos para montar um sistema de monitoramento contra surtos para produtores e usinas. Esse sistema deve estar implantado em um prazo de um a dois anos”, concluiu.