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Publicada em 31/03/2015

Pesquisas mostram que ILP é viável na Costa Leste de MS

Sistema desenvolvido para região prevê rotacionamento de soja e pastagem.

Da Embrapa Agropecuária Oeste

A Costa Leste de Mato Grosso do Sul, também conhecida como Bolsão Sul-Mato-Grossense, possui solo arenoso e chuvas distribuídas durante o ano de forma irregular. Há muitos anos, pecuaristas e técnicos da Assistência Técnica acreditavam que, por esse motivo, seria impossível implantar a agricultura na Região.

Mas depois de oito anos de trabalho com soja, pastagem e pecuária, profissionais de instituições de pesquisa e de universidades, como Embrapa e Unesp, demonstram números que impressionam: média de 50 sacas de soja por hectare e 20 arrobas de carne (sem carcaça) por hectare, sendo a referência de pastagem – anterior à Integração Lavoura-Pecuária (ILP) – de 6 arrobas por hectare.

Isso significa que a agricultura é viável na Região, não sendo necessário abandonar a pecuária, colocando em prática a ILP, batizada de Sistema São Mateus (SSMateus), nome dado por ter experimentos da Embrapa na Fazenda São Mateus.

A diferença primordial desse sistema (validado após cinco anos de experimento) é que, ao invés de rotacionar soja-pastagem-soja, o plantio direto é feito realizado pela sequência de soja-pasto-pasto-soja. Porém, antes de implantar a lavoura, é preciso correção química e física do solo e essencialmente formar palhada para o plantio direto da sequência de soja, pasto, novamente pasto e a volta da soja ao solo.

O chefe geral da Embrapa Agropecuária Oeste, o pesquisador Guilherme Asmus, diz que a Região possui grande potencial de desenvolvimento e precisa de estímulo para incentivar outros pecuaristas. “É por isso que a Embrapa está planejando ter um ponto focal em Três Lagoas para colaborar com o desenvolvimento da Região”.

Cultivares de soja

O pesquisador Carlos Lasaro P. de Melo, da Embrapa Soja (Londrina, PR), lotado na Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados, MS), diz que entre as cultivares recomendadas para a Costa Leste estão três desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Fundação Meridional: as convencionais BRS 284 e BRS 317 e a transgênica BRS 359 RR. Duas cultivares recém lançadas estão em processo de validação para a Região: as transgências 388 RR (com tolerância ao herbicida glifosato) e a 1001IPRO, com tecnologia Intacta RR2 PRO, tolerante ao glifosato e controle de um grupo de lagartas.

Chuvas na Região

No período de menor quantidade de chuva, a incidência solar é maior, a temperatura é mais alta, assim como a velocidade do vento. Tudo isso aumenta a evapotronspiração no solo”, explica. Entre as recomendações para minimizar as intempéries, estão a formação de palha no sistema para refletir a radiação solar, a escolha de materiais genéticos adaptados de soja e pastagens. “A irrigação também pode ser uma estratégia de cultivo a ser pensada para minimizar os efeitos do sol”.

Redução de emissão de GEE

As principais fontes de emissão de gases de efeito estufa (GEE) na lavoura são revolvimento do solo, adubação nitrogenada, falta de cobertura no solo, queima de soqueira/cana e erosão do solo. Na pecuária, pastagens de má qualidade, baixo ganho de peso animal, baixa produção de leite, queima das pastagens e também a erosão do solo.

Estudos da pesquisadora Michely Tomazi, da Embrapa Agropecuária Oeste, mostra que é possível reduzir as emissões a partir da ILP, que possibilita o maior acúmulo de carbono no solo, menor tempo de abate e redução no uso de insumos externos (adubos, combustível, sal mineral, pesticidas...).

O começo do SSMateus

Mateus Arantes, proprietário da Fazenda São Mateus, em Selvíria, MS, foi o primeiro pecuarista a adotar o sistema, estabilizando o sistema em 2007. “Em 2008, a Embrapa chegou com experimento que trouxe novos conhecimentos, que resultou no Sistema São Mateus”, conta Arantes.

Segundo ele, atualmente o SSMateus ocupa uma área da Fazenda de aproximadamente 600 hectares – oito anos atrás era de cerca de 150 hectares. E ele garante que outros dois fazendeiros da Região já colocam em prática a ILP. “Um deles já me ultrapassou, com mais de 1 mil hectares de área de integração”, comenta Arantes, que completa: “Isso é muito bom para a Região,” afirma o produtor, que já se aventura no consórcio milho-braquiária, conseguindo bons resultados, com média de produtividade de 50 sacas/hectare.

Para Fernando Lamas, secretário de Produção e Agricultura Familiar do governo de Mato Grosso do Sul, a Integração Lavoura-Pecuária é uma das soluções, dentro do Plano ABC do governo federal, para ocupar de forma produtiva os 9 milhões de hectares de pastagens degradadas em MS. “É uma tecnologia acessível, que pode ser adotada pelos grandes e médios pecuaristas de gado de corte e pelos pequenos produtores de gado de leite e que traz grandes benefícios para toda a sociedade”, afirma.

DC SSMateus

Os resultados foram apresentados e debatidos na Fazenda São Mateus em Dia de Campo na sexta-feira, 6 de março. O Dia de Campo foi realaizado pela Embrapa Agropecuária Oeste, Gado de Corte e Produtos e Mercado, além da Fazenda São Mateus, e contou com o apoio do Sindicato Rural de Três Lagoas.