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Ciência & Tecnologia

Publicada em 26/11/2014

SENAR promove painel sobre tecnologias da pecuária de leite

Evento reuniu representantes do segmento em oficina em Brasília.

Do SENAR

Identificar as tendências de difusão tecnológica para os próximos anos e os impactos ocupacionais para o segmento da bovinocultura de leite foram alguns dos desafios do Painel de Especialistas, evento promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) nesta segunda-feira (24), em Brasília. Durante a oficina foi aplicada a metodologia do Modelo Prospectiva e Projeção desenvolvida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e disseminada pelo Centro Interamericano para o Desenvolvimento do Conhecimento na Formação Profissional da Organização Internacional do Trabalho (Cinterfor/OIT), do qual o SENAR é integrante.

O método prevê a reunião de especialistas de um segmento para, por meio da experiência desses participantes, identificar quais seriam as tendências tecnológicas no período de cinco a 10 anos seguinte. A partir dessas constatações são elaboradas recomendações para que as instituições possam fazer a atualização de currículos já existentes, a adequação dos cursos ao mercado e a criação de novas capacitações. “Pelo fato de termos uma subutilização no uso de tecnologias, comprovada pelo Censo Agropecuário de 2006, vimos uma oportunidade necessária de conhecer essas tendências para aperfeiçoar os nossos cursos”, declara o assessor técnico do Departamento de Formação Profissional Rural e Promoção Social (DEPPS) do SENAR, Marco Antonio Pinho Alves. Segundo ele, o relatório final será apresentado em maio de 2015, durante a reunião técnica do Cinterfor, em Buenos Aires (Argentina).

Na opinião do presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, o evento contribui para a avaliação de possíveis tecnologias que poderão ser implementadas em diferentes áreas de produção e para que o SENAR possa saber quais capacitações precisará promover nos próximos anos. Segundo ele, tecnologias como a robótica e a nanotecnologia estão começando e virão para melhorar a competitividade do setor.

“Até pouco tempo atrás não existia ordenha robotizada no Brasil. Hoje já existem dois robôs fazendo ordenha no Paraná e, dentro de cinco anos, a perspectiva é termos 40 robôs trabalhando na região Sul. Tecnologias como essas precisam ser avaliadas para que o SENAR possa se atualizar e continuar fazendo aquilo que ele já tem feito, e muito bem feito, nesses anos”, destaca.

Debate estratégico

Cláudio Versiani Paiva, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, ressalta que o evento ocorre num momento oportuno, quando o Brasil se encontra numa fase de escassez de mão de obra e encarecimento do valor da terra, dois fatores que irão afetar e definir quem permanecerá na atividade. Conforme ele, as tecnologias emergentes - como a mecanização, a automação e a robótica - substituirão o trabalho manual e deverão melhorar a qualidade de vida de quem vive no campo. Paiva também chama a atenção para um novo conceito que está surgindo, a “pecuária de precisão”, que enxerga o animal individualmente e não mais como um rebanho. A ferramenta, entre outras vantagens, direciona a quantidade de alimento que cada bovino necessita e, assim, permite planejamento do consumo e redução de gastos.

“Estamos entrando numa outra fase, ou seja, vamos deixar o lado operacional para trabalhar a parte gerencial. Temos que pensar que tipo de mão de obra precisaremos e como capacitá-la. Se por um lado as máquinas reduzem as vagas de trabalho, surgem novas oportunidades para quem estiver capacitado. A ideia é gerar aumento de renda e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas”, salienta.

Para a pesquisadora do Centro de Conhecimento em Agronegócios (Pensa USP), Fernanda Kesrouani Lemos, a participação de especialistas de vários segmentos da cadeia leiteira oferece múltiplos olhares para dar suporte e direcionar as ações do SENAR. Na visão dela, os maiores desafios são gestão, definição de métodos de controle de qualidade e a relação com a indústria como uma forma de agregação de valor para a cadeia, sempre levando em conta as especificidades regionais, características climáticas e culturais.

“É uma cadeia pulverizada, onde 80% são pequenos produtores que respondem por apenas 20% da produção de leite. A busca pela qualidade é um grande desafio e uma necessidade para o desenvolvimento de novos mercados. O SENAR tem papel fundamental de fomentar e difundir novas práticas para que o produtor possa conhecer e adotá-las”, reconhece.

O consultor da empresa Labor Rural, Christiano Nascif, alerta que o principal problema da bovinocultura de leite no Brasil é a baixa produtividade da mão de obra, o que causa impacto direto nos custos de produção. De acordo com ele, o recomendado seria um funcionário para 35 vacas em lactação, mas o índice brasileiro é bem inferior: um empregado para cada 10 animais.

“A eficiência é muito baixa e isso tem tudo a ver com a sustentabilidade da cadeia. A tendência é menos funcionários no campo. Temos que investir em capacitação, automação e inovações tecnológicas com a ótica de aumento da produtividade”, indica.