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Publicada em 17/09/2014

Pesquisa identifica novo inseto do amendoim forrageiro

Estudo apontou ataques do percevejo-de-renda a cultura.

*Por Rodrigo Souza Santos

Foi identificada uma espécie de inseto, potencialmente danosa e conhecida pelo nome vulgar “percevejo-de-renda” (ordem Hemiptera), associada a seis genótipos de amendoim forrageiro (Arachis pintoi e Arachis repens), no Banco Ativo de Germoplasma (BAG) localizado na Embrapa Acre.

O amendoim forrageiro é uma leguminosa herbácea perene, de crescimento rasteiro, podendo atingir de 20 a 40 centímetros de altura. É uma planta pertencente ao gênero Arachis (Fabaceae), originária da América do Sul com cerca de 80 espécies encontradas no Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Estudos revelam que o amendoim forrageiro possui bons níveis de reciclagem de nitrogênio (entre 80 e 120 kg de nitrogênio por hectare ao ano), proporcionando redução de custos com fertilização nitrogenada (adubo animal ou químico).

Dessa forma, entre as poucas leguminosas valorizadas como pastagem, o amendoim forrageiro se destaca nos sistemas pecuários, por possuir alta persistência ao pastejo, altos teores de proteína bruta e digestibilidade, excelente palatabilidade e ótima competitividade quando associado com gramíneas. Assim, o uso dessa leguminosa no sistema de produção de ruminantes promove o benefício de introduzir nitrogênio fixado biologicamente no solo, além de ser uma alternativa proteica suplementar aos animais.

Dentre os projetos atualmente desenvolvidos na Embrapa Acre, o intitulado “Desenvolvimento de cultivares de amendoim forrageiro para consorciação em sistemas sustentáveis de produção pecuária” visa ao lançamento de cultivares dessa leguminosa, uma vez que há uma necessidade iminente de redução do desmatamento e do uso de insumos agropecuários, como o nitrogênio e defensivos agrícolas. Dessa forma, o uso de cultivares de amendoim forrageiro, adaptadas às condições de solo e clima do Acre, é uma condição estratégica para contribuir com a sustentabilidade da pecuária no estado.

Nesse programa de melhoramento genético, o estudo de pragas e doenças é um componente importante a ser avaliado entre os genótipos selecionados. O conhecimento dos insetos associados, seus níveis de danos, flutuação populacional e métodos de controle são fatores essenciais, que devem ser levados em consideração, no lançamento ou recomendação de uma cultivar.

Os hemípteros, conhecidos como “percevejos-de-renda”, são insetos diminutos (aproximadamente 0,5 cm quando adultos), os quais possuem as asas rendilhadas, com espécies relatadas nas culturas da mandioca e seringueira, por exemplo. São sugadores de seiva, que vivem em colônias na face inferior das folhas de suas plantas hospedeiras causando danos. Em altas infestações o inseto pode ocasionar perda de área fotossintética da planta, causando definhamento e morte.

Pelo estudo de monitoramento de pragas em genótipos de amendoim forrageiro, foi verificada a presença de uma espécie de percevejo-de-renda, associada a seis genótipos, pertencentes ao BAG na Embrapa Acre. Foi constatado que, em determinados períodos do ano, sua infestação ocorria em altos níveis populacionais em alguns genótipos, ocasionando injúrias nas plantas, pela contínua alimentação dos insetos.

Até então, não havia registros de percevejos atacando genótipos de amendoim forrageiro no Brasil. O inseto foi identificado como Gargaphia paula (família Tingidae), espécie de ocorrência na região neotropical, com registros no Brasil, Panamá e Peru, sendo essa a primeira constatação da associação do inseto com seu hospedeiro, bem como no Estado do Acre.

A partir desse registro, um estudo está sendo conduzido pela Embrapa Acre, no sentido de determinar a flutuação populacional e nível de dano causado por Gargaphia paula, em dois genótipos de amendoim forrageiro (em área sem aplicação de produtos fitossanitários), os quais foram constatados anteriormente como os mais infestados. Esse estudo determinará o impacto causado pelo inseto nesses genótipos e a época de sua maior ocorrência, o que subsidiará futuros estudos de monitoramento e controle (químico ou biológico).

Ressalta-se, ainda, que a ocorrência desse inseto foi constatada em áreas experimentais, não havendo, até o momento, o registro de ocorrências e danos em áreas de pastagens consorciadas no Estado do Acre.

*Biólogo, D.Sc. em Agronomia - Entomologia Agrícola, Manejo integrado de insetos-praga, pesquisador da Embrapa Acre. E-mail: rodrigo.s.santos@embrapa.br