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Publicada em 26/06/2014

Cana energia também será estudada por programa de pesquisa em MS

PMGCA é coordenado pelo professor Cristiano Márcio Alves de Souza.

Anderson Viegas

O desenvolvimento de variedades mais adaptadas as condições de solo e clima de Mato Grosso do Sul de cana energia, como é chamada a cana-de-açúcar que possui menor teor de sacarose e maior de fibras e celulose, e que é voltada para a cogeração de bioeletricidade e produção do etanol de segunda geração, também será uma das linhas de estudos do Programa de Pesquisa e Melhoramento Genético da cultura (PMGCA), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

A informação é do coordenador do programa, professor Cristiano Márcio Alves de Souza. Designado há pouco mais de dois meses para o cargo, ele revela nesta entrevista exclusiva ao Portal CanaNews os projetos que pretende desenvolver para consolidar o PMGCA, como, a ampliação da equipe técnica e implantação de um viveiro de mudas, bem como das pesquisas que já estão em curso e das que serão realizadas. Ele aborda ainda o trabalho para que a UFGD vem fazendo por meio da tutoria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) para que a instituição integre a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa).

CanaNews – Professor qual sua formação e experiência na área?

Cristiano – Sou graduado e tenho doutorado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa. Desde 2005 sou professor associado da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Na instituição sou assessor da reitoria para projetos, captação de recursos e inovação tecnológica e também coordenador do Núcleo de Inovação e Propriedade Intelectual. Sou ainda orientador permanente dos programas de pós-graduação em Agronomia (Produção Vegetal) e em Engenharia Agrícola (Engenharia de Sistemas Agrícolas). Trabalho com pesquisas com cana-de-açúcar desde 2001 e em abril deste ano fui designado para coordenar o Programa de Pesquisa e Melhoramento Genético da Cana-de-Açúcar na instituição.

CanaNews – Quais projetos pretende implementar em sua gestão à frente do PMGCA?

Cristiano – Pretendemos implementar vários projetos e ações visando principalmente consolidar o programa. Entre eles podemos citar: a ampliação da equipe técnica do programa; a implantação do viveiro de mudas do programa, com a realização do fitoteste em clones promissores e do tratamento termoterápico; a criação da estação experimental associada à fazenda experimental da universidade e em cooperação com uma usina do município; implantar uma área de multiplicação de clones promissores; consolidação do PMGCA da UFGD na Ridesa e o treinamento de pessoal visando a condução das atividades em uma subestação experimental, com dez módulos.

CanaNews – Falando em projetos, qual a estrutura física e de colaboradores que o programa conta atualmente?

Cristiano – O programa conta com um centro de biotecnologia e melhoramento da cana-de-açúcar, que possui um laboratório de biotecnologia e uma estrutura administrativa. Além disso, possui ainda duas casas de vegetação (estufas), abrigo de máquinas, galpão para o tratamento termoterápico da cana, máquinas e equipamentos agrícolas para o preparo do solo, plantio e tratos culturais, 20 hectares na fazenda experimental da UFGD e tem a disposição também os laboratórios de fertilidade do solo e de física do solo da faculdade de Ciências Agrárias. Em relação a equipe temos 12 pesquisadores, nove estagiários e três colaboradores. A intenção é aumentar a equipe, trabalhando com cerca de 12 colaboradores.

CanaNews – Como está sendo feito o trabalho para que a UFGD integre a Ridesa?

Cristiano – A UFGD possui um memorando de entendimento com a Ridesa, mantendo contato com as usinas de Mato Grosso do Sul conveniadas com a rede. Atualmente o Programa de Pesquisa e Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar vem sendo tutorado pela UFSCAR visando a entrada da nossa instituição na rede.

CanaNews – Há quanto tempo a Ridesa desenvolve pesquisas no Estado?

Cristiano – Em Mato Grosso do Sul, as pesquisas da Ridesa, com a UFSCAR, começaram em 2006, com o plantio de duas mil mudas em uma área da usina Eldorado (em Rio Brilhante). Em 2007, atingiu as 40 mil mudas, patamar que vem se mantendo. O desafio da UFGD é conseguir um campo de pesquisa, de melhoramento, com 40 mil mudas, o que garante a entrada efetiva na rede de pesquisas. Atualmente, a rede possui campos de pesquisa em Dourados, Rio Brilhante, Nova Andradina e Ivinhema.

CanaNews – Quais as principais pesquisas que estão sendo desenvolvidas pelo programa da UFGD?

Cristiano – Temos uma série de projetos e ações sendo desenvolvidas. Podemos citar como exemplos o programa de melhoramento genético da cana-de-açucar, que é uma ação contínua, por tempo indeterminado, e ainda vários outros como: o de estudos agronômicos, biológicos, químicos e tecnológicos da cana para a produção de bioetanol, a pesquisa, desenvolvimento e inovação aplicados ao setor sucroalcooleiro, o desempenho agronômico de cana-soca submetida a diferentes manejos e níveis de palhiço, a aplicação aérea para o uso de maturadores, a pequisa tecnológica nas usinas e ainda a quantificação de carvão (Ustilago scitaminea) em diferentes variedades de cana.

CanaNews – Quais as principais dificuldades nas pesquisas com cana-de-açúcar?

Cristiano – A principal dificuldade é que a planta tem um ciclo mais longo. As pesquisas para saber se uma variedade é viável e se apresenta vantagens em relação as que estão no mercado demoram pelo menos oito anos. Para colocá-la no mercado o tempo é maior ainda, chega a 12, 14 anos. Outro ponto é o número de cromossomos da planta.Em outras culturas você tem um número certo, na cana não, varia de 80 a 128. Por isso, as combinações geram plantas com carga genéticas muito diferentes, o que faz com algumas questões de biotecnologia da cana não estejam totalmente resolvidas.

CanaNews – Em quanto tempo deveremos ter uma variedade Ridesa desenvolvida em Mato Grosso do Sul e voltada para ter o melhor desempenho nas condições de solo e clima do Estado?

Cristiano – Daqui a três quatro anos. Temos variedades estudadas que já estão no terceiro corte. Então daqui a esse período elas já estarão aptas a comercialização. Aí, entretanto, entra outro aspecto da rede, o comercial. A rede é universitária. A idéia não é a lucratividade, é dar prosseguimento ao trabalho, mas para isso também é preciso recursos para investir em novas pesquisas e para dar uma formação melhor aos alunos das universidades que a integram. Então seria um contrassenso colocar no mercado uma nova variedade que vai concorrer diretamente com uma outra, também da rede, que tem um desempenho um pouco inferior, mas que ainda tem um bom período de exploração comercial.

CanaNews – No setor, a bioeletricidade vem ganhando cada vez mais importância. E o etanol de segunda geração que era uma perspectiva futura há alguns anos já é realidade. O programa também desenvolverá pesquisas para atender esse novo contexto do segmento?

Cristiano – A nossa idéia é que nos primeiros três, quatro anos de trabalho, concentrar as ações do programa somente na cana-de-açúcar, desenvolvendo, por exemplo, variedades que sejam mais resistentes ao frio, para que as perdas com uma geada como a que ocorreu na safra passada (2013/2014) sejam menores. Entretanto, a partir daí, devemos começar a dividir o trabalho, em 80% das ações para a cana-de-açúcar e 20% para a cana energia, que é como é chamada a planta que tem menor teor de sacarose e mais de fibra e celulose, justamente para atender a cogeração de energia e a fabricação do etanol de segunda geração. As instituições da rede no Nordeste, por enquanto, são as que estão mais avançadas com os estudos com a cana energia. As suas variedades, pelo que apontam os estudos, são mais rústicas e podem produzir de 180 a 200 toneladas por hectare, enquanto que uma variedade de cana-de-açúcar convencional pode chegar a 120 toneladas por hectare.