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Publicada em 10/03/2014

Descolamento entre consumo e demanda viabiliza etanol de milho

Estudos da consultoria INTL FCStone apontam para a viabilidade de investimentos nessa área no País.

Da assessoria

O agronegócio brasileiro se destaca, dentre outras coisas, pela crescente produtividade das lavouras, em especial das culturas de soja e milho. A produção por unidade de área avançou quase 90% ao longo das décadas de 1980 e 1990 e os índices vêm sendo superados a cada ano. Neste contexto de ampliação das áreas de lavoura no país, destacam-se as regiões onde se é possível ter mais de uma safra por ano, devido a condições climáticas e hídricas. Com a possibilidade de se plantar uma safra de inverno, o trade-off entre soja e milho no ciclo de verão deixa de ser determinante. Um exemplo disso é o estado de Mato Grosso, onde praticamente não se cultiva milho na safra principal, deixando esta opção para a “safrinha”.

Dede a safra 2000/01, a produtividade do milho no Brasil cresceu 57%. Mesmo com a produção de milho crescendo consideravelmente ano a ano, ela não foi acompanhada pelo aumento do consumo na mesma proporção. Estudos da INTL FCStone, consultoria de gerenciamento de risco com foco em commodities, revelam que enquanto a produção aumentou mais de 90% entre as safras 2005/06 e 2012/13, o consumo doméstico cresceu na casa dos 30%, a despeito do volume de exportações maiores.

Em meio a esse descasamento entre consumo e demanda, observa-se o crescimento da oferta total de milho no país nos últimos anos, uma vez que os estoques de passagem estão, consequentemente, mais elevados. “Diante desse cenário, a produção de etanol a partir do milho é uma alternativa para absorver esse aumento de oferta do grão e poderia, inclusive, incentivar uma produção ainda maior do cereal no Brasil. Mesmo uma fonte importante de demanda de milho, que é a produção de ração animal, não vem acompanhando o ritmo de crescimento da oferta do cereal. De 2008 a 2013, enquanto a produção de milho aumentou 38,7%, o consumo de milho para ração cresceu 15,9%”, explica a economista Ana Luiza Lodi, analista de mercado da INTL FCStone, uma das autoras de uma série de estudos que a consultoria vem desenvolvendo para avaliar a viabilidade da produção de etanol de milho no Brasil.

No Brasil, sempre se ressaltou as vantagens do etanol de cana-de-açúcar, com destaque para o balanço energético, que corresponde à razão entre a energia liberada pela queima do etanol e a energia necessária para produzi-lo. “Para se produzir etanol do milho gasta-se mais energia do que a despendida no biocombustível da cana. Contudo podem ser destacadas algumas vantagens do milho, como a possibilidade de se estocar o grão por tempo praticamente indeterminado, enquanto a cana deve seguir para a moagem logo após ser colhida”, aponta Ana Luiza.

Algumas usinas, denominadas “flex”, começam a explorar o milho para a produção de etanol juntamente com a cana, com destaque para os períodos de entressafra desta última, em que a manutenção da planta operando com o milho contribui para diminuir os custos fixos.

Outro ponto a ser considerado, segundo a INTL FCStone, é a concentração da indústria sucroalcooleira no estado de São Paulo e regiões próximas. “Essa questão geográfica encarece a distribuição do etanol de cana em estados mais distantes de São Paulo. Ademais, com os custos elevados do frete, também há o encarecimento do milho produzido, por exemplo, em Mato Grosso e transportado para outros estados e portos brasileiros. Destaca-se, ainda, que os preços mais baixos do cereal, principalmente em Mato Grosso, contribuem para viabilizar essa alternativa para a produção do biocombustível, garantindo, inclusive margens elevadas às usinas que utilizam o milho”, argumenta a economista.

Diante disso, para a consultoria, a produção de etanol de milho no Brasil, apesar de ainda engatinhar, tem um potencial enorme de crescer, pois conta com vantagens importantes, com destaque para a estocagem e a penetração em mercados não alcançados pelo biocombustível da cana.

“Essa alternativa se torna ainda mais factível, pois, nos próximos anos, o cultivo do milho no Brasil deve continuar avançando, a despeito dos produtores terem desanimado um pouco com os preços baixos observados no segundo semestre de 2013. Além da absorção de parte do milho produzido, o etanol do cereal contribuiria para desconcentrar a indústria do biocombustível no país, tornando-o inclusive mais competitivo em todo o território nacional”, destaca Ana Luiza Lodi.