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Publicada em 26/09/2013

Biorrefinarias podem reduzir déficit na indústria química

Simpósio em Brasília debate o tema.

Embrapa Agroenergia

Todos os anos, o Brasil desperdiça pelo menos 1 bilhão de toneladas de biomassa que poderiam ser transformadas em produtos para injetar dinheiro na economia. São resíduos agropecuários, florestais e agroindustriais com capacidade de serem matéria-prima para energia, biocombustíveis, materiais e produtos químicos, em indústrias que estão ganhando o nome de biorrefinarias. Os desafios tecnológicos e o potencial econômico desse segmento serão debatidos até quinta-feira (26), em Brasília/DF, no II Simpósio Nacional de Biorrefinarias (SNBr). O evento é promovido pela Embrapa Agroenergia, em parceria com Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e a Sociedade de Engenharia Química e Biotecnologia da Alemanha (Dechema).

Coordenador do evento, o pesquisador da Embrapa Agroenergia Silvio Vaz Júnior explica que as biorrefinarias preconizam o aproveitamento integral da biomassa. Isso aumentaria a gama de produtos provenientes das cadeias produtivas e, consequentemente, o valor agregado a cada uma delas. Além disso, o uso de matérias-primas renováveis contribuiria para a sustentabilidade da indústria química.

As biorrefinarias têm sinergia com a química verde, por atenderem a princípios como a minimização de impactos no meio ambiente. Nesse sentido, o estabelecimento delas é fundamental para cumprir uma das metas estabelecidas no Pacto Nacional da indústria Química: tornar o Brasil líder em química verde. Para tanto, “é preciso investir em inovação”, ressalta o coordenador da Comissão de Tecnologia Abiquim, Paulo Coutinho.

Também segundo Coutinho, o desenvolvimento de tecnologia nacional para biorrefinarias pode ajudar a reduzir o déficit da balança comercial do setor no País. A Abiquim, estima que, em 2012, as importações de produtos químicos tenham superado as exportações em 28 bilhões de dólares. Na opinião da assessora técnica da associação, Mariana Doria, as biorrefinarias têm potencial de ajudar o setor a reduzir as cifras negativas. “O Brasil possui um grande potencial de crescimento agrícola e a matéria-prima mais competitiva com a menor pegada de carbono: a cana-de-açúcar. Nesta área, podemos ter uma grande vantagem competitiva”, afirma.

De acordo com a União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), só na última safra, os canaviais da região Centro-Sul geraram mais de 500 mil toneladas de biomassa. Cerca de 30% desse volume é constituído de bagaço. As usinas já trabalham no conceito de biorrefinarias e têm queimado esse resíduo para gerar energia elétrica. No entanto, ele poderia ter outros fins, como a transformação em produtos químicos. Com o avanço das colheitas mecanizadas, outro material que sobra cada vez em maior quantidade nos canaviais é a palha – estima-se 150 milhões de toneladas por safra.

A primeira edição do SNBr, que aconteceu em 2011, apontou que a diversificação estratégica para o agronegócio da cana-de-açúcar passa pelo aproveitamento desses resíduos para produção, por exemplo, de etanol de 2ª geração, biobutanol e outros bioprodutos.

Outra cadeia produtiva que adotou o conceito de biorrefinarias é a da soja, principal fonte de óleo para produção de biodiesel. Neste caso, chama atenção a possibilidade de aproveitamento do principal resíduo gerado nessas usinas: a glicerina. São obtidos 10m3 desse material para cada 90m3 de biodiesel produzidos. Atualmente, a glicerina é exportada principalmente na forma bruta. Contudo, estudos apontam que ela pode ser convertida em produtos químicos com maior valor agregado, tais como o xilitol e o sorbitol.

A indústria alimentícia também gera resíduos que podem ser transformados em produtos de maior interesse comercial. O beneficiamento do arroz produz cerca de 2,5 milhões de toneladas de cascas por ano e o do amendoim, aproximadamente 88 mil toneladas. Já do processamento mecânico da madeira, sobram pelo menos 50 mil toneladas de serragem e cavacos.

Durante o II SNBr, o potencial e os desafios para as biorrefinarias serão discutidos por especialistas que atuam no Brasil e no exterior (veja a programação). Na abertura, que acontece hoje à 18h, será lançado o livro “Biomassa para Química Verde”, publicado pela Embrapa Agroenergia, cujo editor técnico é pesquisador Silvio Vaz Júnior.

O Simpósio tem o apoio institucional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Internacional Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), da Sociedade Ibero-americana para o Desenvolvimento das Biorrefinarias (Siadeb), da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), da Associação Brasileira da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e do Conselho Regional de Química do Estado de São Paulo (CRQ IV Região). A Braskem, a SINC do Brasil e a Clariant patrocinam o Simpósio.